Ontem
vi o excelente “Doze anos de escravidão”, sobre o triste destino de um homem americano, negro,
livre, que depois de ter adquirido uma educação primorosa e vivido uma vida
plena, volta à condição de escravo. Mas não vou aqui me deter excessivamente no
filme, em si, nem na escravidão como fato histórico, pois não sou
estraga-prazeres e sei que não há páginas em branco suficientes no mundo, para
que se possa falar sobre como é injusta, aviltante e vergonhosa. Vou falar da
tirania que está no lado oposto do escravo e por trás da condição do seu dono.
No
filme, o escravo, se depara com um Senhor verdadeiramente selvagem, um homem
sem limites para seu senso de poder e para suas emoções. Endividado, infeliz, rodeado
do poder que sente em possuir seus catorze, quinze escravos. Ele é a metáfora
muito profunda deste lado obscuro do ser humano. Para ele, não bastava ser o
dono de seus escravos, lhes dar as ordens, lhes suprimir a liberdade, manter
vigilância sobre eles e negociá-los quando fosse necessário. Era preciso se
apropriar de suas almas e beber, como se fossem sangue, os sentimentos, os
pensamentos, os sonhos, as dores dos seus objetos, como alimento da própria
alma e corpo.
Alimentar-se
do outro, contra sua vontade, é, pois, tirania em sua mais pura forma.
Os
tiranos da história, sabemos quem foram. No passado ou no presente, são iguais.
Eles se se copiam, mas hoje se reproduzem com uma certa raridade, felizmente, graças
à lei, aos regimes democráticos, à vigilância da sociedade, dentre outros
fatores. Mas se pararmos um pouco, veremos que há mais tirania à nossa volta,
do que percebemos, pois ela não é tão típica quanto à de governantes autoritários
e sanguinários. É sutil, se apresenta como traço em muitas relações familiares
e afetivas, na escola, no trabalho. No
mundo real, não há tiranos de “carteirinha”. Há apenas, a tirania, mais ou
menos velada, como um traço de nossa natureza humana.
Isso
nos leva à constatação de que, em dado momento, podemos agir como qualquer um
deles, no controle, no ciúme, no auto centrismo. Basta que para tanto, nos
sintamos no poder que emana de um falso direito de possuir o que quer que seja.
Há tiranos por toda parte e de todas as idades. Crianças são boas nisso. Podem
aprender cedo a ter tudo o que querem. O modelo muito tradicional de casamento,
relação pais-filho, professor-aluno, chefe-empregado. Sabemos exatamente quando
estamos sendo tirânicos com as pessoas que nos rodeiam, servem, amam, dependem.
Minha
proposta é, finalmente, a de que não cuidemos apenas em viver nossas relações
como sempre fizemos. É que reflitamos sobre o que a sensação de saber que o
podemos, não nos tire a visão de quem somos e de quem são os outros e
porque estão ali, no meio das nossas vidas. É nunca deixar que esta medida se
perca, pois ela é bússola do que é justo e bom, para nós e para os outros. Descobrir
porque queremos, se podemos e devemos.
Sejamos
o escravo que se liberta, finalmente, do seu tirano.
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