quinta-feira, 15 de maio de 2014

ESCREVER PORQUE NÃO HÁ OUTRO JEITO

Escrever. 

Preciso escrever. Isso tudo está me consumindo, estou angustiada, não sei explicar, tem algo querendo sair de dentro de mim, explodir, quero vomitar, minha cabeça gira. 

Vomitar palavras, sentidos, significados, estórias, vidas. Quero que saia logo, não tem mais espaço, não cabe mais em mim, na minha cabeça.

Nada pode ficar guardado, não vou conseguir e afinal, a palavra tem vida e vou dar-lhe o que precisa para existir. 

Sou Atlas, o mundo em minhas costas, carregando as vidas que pesam em mim, essas palavras-pensamentos. Eu sofro. Sim, sofro. Mas sofro menos quando digo, quando escrevo.

Eu pensei que podia suportar. Mas não. Aí ouço quando alguém me diz: “Calma, é assim mesmo.” Como assim mesmo? 

Assim, assim, com minhas mãos vazias? 

Eu quero algo, aqui. E alguém me lembra: “Você não quis segurança, buscou o incerto e o que conseguiu? Olhe para si mesma!”



Eu sei, busquei o incerto, eu não sabia, pensei que teria algo, que pelo caminho haveria algo, um sentido. Fiquei vazia, eu sei. 

Mas o ar me encheu os pulmões novamente, o coração bate novamente e ele bombeou oxigênio e, inevitavelmente, meu cérebro recebeu esse alimento e então, aconteceu o inevitável: a força da vida apressada, que quer respirar e existir, volta e vem cobrando o tempo de espera, perdido nas curvas da vida, minha dos outros. Me lembra que tenho uma missão sem escolha. 

Assim, restam-me as palavras, as que eu invento, que coloco do meu jeito. Só tenho a elas. Elas me pertencem e só pertenço a elas. 

E agora há o sopro infinito do momento em que a magia acontece. 

As palavras que eu falo e coloco no papel são uma multidão onde sou alguém, onde pertenço. Hora de me reunir aos meus mundos da Terra,  do fogo, do ar, do mar. 

Aos meus.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

OS SUPER-HEROIS E OS ORFÃOS


Eu nunca havia me detido no fato de que os super-heróis não têm pai e mãe vivos. Apesar de saber disso, a informação não tinha ligação com nenhum outro significado, senão o de que na maioria das vezes, são órfãos. Recentemente, dei com uma menção a isso que não é uma mera coincidência nas histórias em quadrinhos como o Super-Homem, o Homem-Aranha, e há pouco, o Harry Potter, dentre outros vários.

Saí então à caça de explicações, pois, queria como ainda quero entender o que há por trás dessa ausência dos pais vivos e os feitos grandiosos dessas figuras que habitam o nosso imaginário, voando pelos ares, enfrentando inimigos terríveis e salvando a humanidade, trazendo de volta a paz e a justiça como o coroamento dos perigos que vivenciaram...sozinhos!

Em princípio, isso contradiz muito da nossa própria condição, pois crescemos em grau maior ou menor das figuras materna e paterna como a fontes de segurança, de permanência e de amparo em momentos difíceis. Por esse prisma simplório, ter isso tudo significaria, portanto, uma diminuição de capacidades, algo de que deveríamos nos envergonhar, dado a enormidade do contraste com alguém, que por outro lado, é completamente destituído dessa força, ou seja, o órfão e mesmo assim, realiza feitos tão grandiosos.

Mas esse não é o foco da questão.

Via de regra, os super-heróis vêm de algum “outro” lugar, não são “daqui”. Perderam os pais ou foram preparados por outras pessoas. Receberam deles, ou mentores (há quase sempre um, que orienta o discípulo), dons ou forças especiais, que eventualmente saberão manejar. São anônimos sociais, têm profissões simples, são sensíveis às desigualdades e possuem senso de justiça apurado. Muitas vezes, têm uma relação ambígua com o poder (estar próximo significa saber a quem devem combater, ou seja, a ignorância, não salva!). Suas missões são dignificantes e seus inimigos querem o fim da sociedade, almejam o controle absoluto de tudo. Quando afortunados (por herança, quase sempre), usam o poder material para viabilizar a missão maior. 

O Psicanalista Carl Jung estudou esse arquétipo. O professor Joseph Campbell o explica através da “Jornada do Herói”. Muitas são as teses e não pretendo aqui obter a resposta de algo que me parece um grande mistério.

Super-heróis não são mera diversão. Têm uma significação mais ampla do que costumamos atribuir a eles, especialmente quando deixamos para trás a infância, onde eles existem, de fato. E, refletir sobre o que vem das profundezas do inconsciente coletivo no qual nossas mentes mergulham em busca de força e orientação, pode nos ajudar a entender do que necessitamos quando estamos diante de um obstáculo que nos parece insuperável. 

Nós, como eles, somos únicos. Nossos inimigos são igualmente ardilosos e imprevisíveis, mas desconhecem os nossos poderes extraordinários, recebidos durante a preparação para nossas missões, que nos deram nossos cuidadores, pais e mentores. Até estarmos prontos, somos seres em transição, ou aprendizes.

O super-heróis são portanto, “órfãos" já adultos, na verdadeira concepção da palavra, e por isso estão capacitados a enfrentar obstáculos e inimigos, a defender seus ideais e proteger o bem maior, o bem-comum a todos os habitantes e criaturas deste nosso “planeta”. 

O adulto, enfim, se faz de muitas matérias, e é o resultado desse processo de crescimento, para tornar-se responsável, partícipe, e não se se deixar alienar daquilo que o cerca e sabe ser o melhor para si e para os outros.

Por isso eles, os super-heróis, assim como os verdadeiros adultos, são destituídos da necessidade de outras presenças (e.g dos pais), pois já têm tudo do que necessitam para viver em harmonia com o universo e a defende-lo quando necessário. 

E ao final dessa jornada, percebo, aliviada, que somos todos super-heróis, aprendizes ou já prontos, dependendo da fase de vida e de amadurecimento em que nos encontramos. Eles, que nos divertem até hoje (a mim, pelo menos),  nada mais são do que a nossa representação fantástica, inspiradora, fantasiosa, mas absolutamente real e verdadeira de nós mesmos. Ufa. 

   

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A MORTE DO DANÇARINO E A PERMANÊNCIA DAS CAUSAS

               Há uma semana assistimos à comoção da população do Morro "Pavão-Pavãozinho", no Rio de Janeiro, pela morte de um jovem dançarino da Rede Globo. Sua mãe luta arduamente pela justiça que ela talvez não saiba que não virá. E não virá simplesmente, porque a morte de seu filho é um efeito, e não uma causa de um processo muito mais complexo e amplo, incrustado tanto nas encostas dos morros e suas favelas, quanto em toda a vida brasileira.



                  E quanto mais "mártires" dessa violência urbana/civil/policial, mais longe a solução para um combate efetivo às suas causas. Sendo tão pontual quanto o fato em si, ninguém fala, por exemplo, que há chances de que o dançarino se relacionava afetivamente com o traficante que estava sendo caçado na operação (o que absolutamente não justifica o horrendo crime, mas que talvez explique as circunstâncias, já que sua fuga pode estar relacionada a essa perigosa ligação). É que a violência trabalha em mão dupla e conviver com ela, também pode significar uma ausência de limites entre um lado, ou outro. Nela, podemos ser todos mocinhos e bandidos, ao mesmo tempo. E eles, os abatidos nesse triste combate, acabam virando apenas objeto de manipulação midiática e mais violência, passeatas enraivecidas, pela população atingida em seu âmago, desorientada por não saber que rumos tomar. Mais uma série de entrevistas, pseudo-homenagens em programas de auditório (como o da Casé, que bem soube explorar o fato) e no final, uma morte a mais, assim como execuções sumárias, diárias, promovidas pelas facções de traficantes e criminosos em geral e em todo lugar, que escondem em suas valas, milhares de “Meus Guris”, em alusão à canção do Chico Buarque:
“.............
O guri no mato, acho que tá rindo, acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo eu não disse, seu moço! Ele disse que chegava lá
Olha aí! Olha aí!...”

                E o que falar dos milhares de inocentes, os "civis" de uma guerra militarizada de ambos os lados, os mortos-para-nada, seivados banalmente, num dia de serviço habitual de um bandido? Não há outra alternativa, senão o povo voltar às ruas e marchar contra a violência neste país, abrindo um amplo debate sobre suas verdadeiras causas, pois elas não atingem apenas esta ou aquela cidade. É a violência nossa de cada dia de todo lugar! 

                Mas apesar de as estatísticas mostrarem ser a tríade "JOVEM, NEGRO e POBRE" fator determinante das mortes prematuras não naturais, lembro que esses não são as únicas vítimas deste processo - o cidadão brasileiro, como um todo é, igualmente, vítima desse quadro. E seus algozes, novamente, são oriundos da mesma tríade, que forma o contingente da criminalidade de alta periculosidade no Brasil. Ou seja, no Brasil, ser JOVEM, NEGRO e POBRE significa ser, ao mesmo tempo, VÍTIMA e ALGOZ! É um círculo de violência que não será resolvido com o patético e inadequado sistema de cotas criado por aqui, baseado na "autodeclararão" de afro descendência e que apenas entrincheira o problema e aumenta a segregação que visa combater.

                Somos uma nação de todas as cores, cuja escola pública não funciona, e que não funcionará para JOVEM, NEGRO e POBRE e para outros milhões de jovens pobres, pardos, brancos, asiáticos e indígenas. Em suma, a criminalidade virou nossa maior chaga, maior que a política social burra do PT, maior que a inflação voltando, que a corrupção, que o Mensalão. A criminalidade está à frente de todos esses problemas, pois não pode ser extinta "por decreto". É um trabalho de toda a sociedade e suas instituições, para que o Brasil se enxergue, em todos os seus aspectos, como um país de todos, e não de alguns, apenas.  

                Enfim, a violência é de todos, não é só carioca, do morro, e negra, nem muito menos, pobre - Ela é hoje, uma das nosas maiores referências, depois do futebol e da mulher de bum-bum grande, a marca Brasil. Infelizmente. Mas acredito que tem jeito, não desistamos de ir em busca de um novo país.   

domingo, 16 de fevereiro de 2014

St. Germain de Près, Paris, Fevereiro 2012.


TIRANIA NOSSA DE TODO DIA

Ontem vi o excelente “Doze anos de escravidão”, sobre o triste destino de um homem americano, negro, livre, que depois de ter adquirido uma educação primorosa e vivido uma vida plena, volta à condição de escravo. Mas não vou aqui me deter excessivamente no filme, em si, nem na escravidão como fato histórico, pois não sou estraga-prazeres e sei que não há páginas em branco suficientes no mundo, para que se possa falar sobre como é injusta, aviltante e vergonhosa. Vou falar da tirania que está no lado oposto do escravo e por trás da condição do seu dono.

No filme, o escravo, se depara com um Senhor verdadeiramente selvagem, um homem sem limites para seu senso de poder e para suas emoções. Endividado, infeliz, rodeado do poder que sente em possuir seus catorze, quinze escravos. Ele é a metáfora muito profunda deste lado obscuro do ser humano. Para ele, não bastava ser o dono de seus escravos, lhes dar as ordens, lhes suprimir a liberdade, manter vigilância sobre eles e negociá-los quando fosse necessário. Era preciso se apropriar de suas almas e beber, como se fossem sangue, os sentimentos, os pensamentos, os sonhos, as dores dos seus objetos, como alimento da própria alma e corpo.

Alimentar-se do outro, contra sua vontade, é, pois, tirania em sua mais pura forma.

Os tiranos da história, sabemos quem foram. No passado ou no presente, são iguais. Eles se se copiam, mas hoje se reproduzem com uma certa raridade, felizmente, graças à lei, aos regimes democráticos, à vigilância da sociedade, dentre outros fatores. Mas se pararmos um pouco, veremos que há mais tirania à nossa volta, do que percebemos, pois ela não é tão típica quanto à de governantes autoritários e sanguinários. É sutil, se apresenta como traço em muitas relações familiares e afetivas, na escola, no trabalho.  No mundo real, não há tiranos de “carteirinha”. Há apenas, a tirania, mais ou menos velada, como um traço de nossa natureza humana.

Isso nos leva à constatação de que, em dado momento, podemos agir como qualquer um deles, no controle, no ciúme, no auto centrismo. Basta que para tanto, nos sintamos no poder que emana de um falso direito de possuir o que quer que seja. Há tiranos por toda parte e de todas as idades. Crianças são boas nisso. Podem aprender cedo a ter tudo o que querem. O modelo muito tradicional de casamento, relação pais-filho, professor-aluno, chefe-empregado. Sabemos exatamente quando estamos sendo tirânicos com as pessoas que nos rodeiam, servem, amam, dependem.

Minha proposta é, finalmente, a de que não cuidemos apenas em viver nossas relações como sempre fizemos. É que reflitamos sobre o que a sensação de saber que o podemos, não nos tire a visão de quem somos e de quem são os outros e porque estão ali, no meio das nossas vidas. É nunca deixar que esta medida se perca, pois ela é bússola do que é justo e bom, para nós e para os outros. Descobrir porque queremos, se podemos e devemos.


Sejamos o escravo que se liberta, finalmente, do seu tirano. 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

O TEMPO DOS SEM-IDADE

                  Recentemente ouvi um comentário na TV sobre uma nova geração chamada de os "sem-idade". Imediatamente parei o que estava fazendo e a cada palavra dita, mais eu me identificava com o conceito inédito. Segundo a reportagem, as pessoas estão se reinventando a partir dos cinquenta anos, mudando suas vidas, padrões, crenças, hábitos, modos, profissões, endereços e querem tudo o que a vida lhes puder dar, antes que, de fato, sintam-se velhos. É o Kayrós* dos Gregos, o tempo do tempo, e não a medida cronológica de sua passagem.

           Eles estão por todo lado, esses loucos desprovidos de medidas temporais. Há um movimento diferente na esfera da vida, uma nova onda, a quinta, quem sabe e que Alvin Toffler** não me ouça (pois ele previa coisas mais complexas e fenomenais!). Mas nada pode ser mais fenomenal do que resistir e lutar contra a velhice precoce, cronológica e social, uma doença que afetou nossos antepassados, velhos, tadinhos, aos cinquenta anos, e que os expropriou de anos de plenitude, simplesmente porque não havia o consentimento social para que isso ocorresse.  

                  Obviamente, eu me enquadro no novo conceito. Depois dos cinquenta, pessoalmente me virei de “pernas pro ar”, literalmente, e me reinventei. A minha manobra foi radical, mas necessária. Cada caso tem tanta sutileza, quanto somos indivíduos diferenciados uns dos outros. E a virada dos cinquenta, as mudanças sofridas pelas crenças e rotinas abaladas por mudanças externas, além das ondas de calor, me trouxeram a consciência de que superar as limitações impostas à idade e suas velhas conveniências, é uma necessidade, uma obrigação, mesmo. É puro respeito à vida em todas as suas nuanças.

                A velhice é um longo processo que começa quando ainda somos jovens. Mas a “nova juventude” é uma construção do espírito, quando lhe permitimos deixar-se arejar, sempre e a cada dia, por novos hábitos, pensamentos e atitudes. Jovens podem ter ideias velhas e vice-versa. O que define alguém atemporal, portanto, é sua capacidade de se permitir mudar, revolucionar a própria vida, romper com o que não constrói, não melhora, com a tristeza que mora na curva do caminho de quem apenas ruma para a morte, como quem está condenado a viver, e não por ser premiado ao respirar a cada dia, um novo sopro de vida.

                 Assim, não importa que escolhas possam ser feitas, desde que exista esta possibilidade: a de escolhermos fazer diferentemente do que se nos impõem o tempo, a família, o trabalho, o meio social e político que nos rodeia. Também não importa quanto tempo vamos passar assim - importa mesmo é poder escolher o próprio rumo (destino é muito forte, questiono quem acha que escolhe o seu, mas isso fica para outra oportunidade).

                Lembro, por último, que não precisamos largar tudo para começar uma nova vida. Cada um pode fazer sua própria revolução, à sua maneira, muitas vezes até silenciosamente, pois no fundo, é uma ação de dentro para fora, que começa no interior de cada um. E se como bem disse Epiteto, só podemos mudar a nós mesmos, então, façam-se as mudanças e vivamos o nosso tempo sem tempo, à nossa maneira e espero, por muito tempo.

*Kairós (em grego καιρός) é uma palavra da língua grega antiga que significa “o momento oportuno”, "certo" ou “supremo”. Na mitologia, Kairós é filho de Chronos (Deus do tempo e das estações). Os gregos antigos possuíam duas palavras para a moderna noção de "tempo": chronos e kairos. Enquanto a primeira era usada no contexto de tempo cronológico, sequencial e linear, ao tempo existencial os gregos denominavam Kairos e acreditavam nele para enfrentar o cruel e tirano Chronos. Enquanto o primeiro é de natureza quantitativa, Kairos possui natureza qualitativa.

**Alvin Toffler (04/10/ 1928) é um escritor e futurista norte-americano, conhecido pelos seus escritos sobre a revolução digital, a revolução das comunicações e a singularidade tecnológica. Em sua obra “A Terceira Onda”,  revela que a primeira onda trata da revolução agrícola,  a segunda onda apresenta as modificações ocorridas na sociedade com base na revolução industrial. Já a terceira onda é a "Era da Informação", em que mente, informação, conhecimento e alta tecnologia são tipos de capital essenciais ao sucesso das corporações. Toffler considera que hoje vivenciamos a 4a onda, relacionada à sustentabilidade e ao meio ambiente.