Recentemente ouvi um
comentário na TV sobre uma nova geração chamada de os "sem-idade". Imediatamente parei o
que estava fazendo e a cada palavra dita, mais eu me identificava com o
conceito inédito. Segundo a reportagem, as pessoas estão se reinventando a partir
dos cinquenta anos, mudando suas vidas, padrões, crenças, hábitos, modos,
profissões, endereços e querem tudo o que a vida lhes puder dar, antes que, de
fato, sintam-se velhos. É o Kayrós* dos Gregos, o tempo do tempo, e não a
medida cronológica de sua passagem.
Eles estão por todo
lado, esses loucos desprovidos de medidas temporais. Há um movimento diferente
na esfera da vida, uma nova onda, a quinta, quem sabe e que Alvin Toffler** não
me ouça (pois ele previa coisas mais complexas e fenomenais!). Mas nada pode
ser mais fenomenal do que resistir e lutar contra a velhice precoce,
cronológica e social, uma doença que afetou nossos antepassados, velhos,
tadinhos, aos cinquenta anos, e que os expropriou de anos de plenitude,
simplesmente porque não havia o consentimento social para que isso ocorresse.
Obviamente, eu me
enquadro no novo conceito. Depois dos cinquenta, pessoalmente me virei de
“pernas pro ar”, literalmente, e me reinventei. A minha manobra foi radical, mas
necessária. Cada caso tem tanta sutileza, quanto somos indivíduos diferenciados
uns dos outros. E a virada dos cinquenta, as mudanças sofridas pelas crenças e
rotinas abaladas por mudanças externas, além das ondas de calor, me trouxeram a
consciência de que superar as limitações impostas à idade e suas velhas
conveniências, é uma necessidade, uma obrigação, mesmo. É puro respeito à vida
em todas as suas nuanças.
A velhice é um longo
processo que começa quando ainda somos jovens. Mas a “nova juventude” é uma
construção do espírito, quando lhe permitimos deixar-se arejar, sempre e a cada
dia, por novos hábitos, pensamentos e atitudes. Jovens podem ter ideias velhas
e vice-versa. O que define alguém atemporal, portanto, é sua capacidade de se
permitir mudar, revolucionar a própria vida, romper com o que não constrói, não
melhora, com a tristeza que mora na curva do caminho de quem apenas ruma para a
morte, como quem está condenado a viver, e não por ser premiado ao respirar a
cada dia, um novo sopro de vida.
Assim, não importa que
escolhas possam ser feitas, desde que exista esta possibilidade: a de escolhermos
fazer diferentemente do que se nos impõem o tempo, a família, o trabalho, o
meio social e político que nos rodeia. Também não importa quanto tempo vamos
passar assim - importa mesmo é poder escolher o próprio rumo (destino é muito
forte, questiono quem acha que escolhe o seu, mas isso fica para outra
oportunidade).
Lembro, por último,
que não precisamos largar tudo para começar uma nova vida. Cada um pode fazer
sua própria revolução, à sua maneira, muitas vezes até silenciosamente, pois no
fundo, é uma ação de dentro para fora, que começa no interior de cada um. E se como
bem disse Epiteto, só podemos mudar a nós mesmos, então, façam-se as mudanças e
vivamos o nosso tempo sem tempo, à nossa maneira e espero, por muito tempo.
*Kairós (em
grego καιρός) é uma palavra da língua grega antiga que significa “o momento
oportuno”, "certo" ou “supremo”. Na mitologia, Kairós é filho de
Chronos (Deus do tempo e das estações). Os gregos antigos possuíam duas
palavras para a moderna noção de "tempo": chronos e kairos. Enquanto
a primeira era usada no contexto de tempo cronológico, sequencial e linear, ao
tempo existencial os gregos denominavam Kairos e acreditavam nele para
enfrentar o cruel e tirano Chronos. Enquanto o primeiro é de natureza
quantitativa, Kairos possui natureza qualitativa.
**Alvin
Toffler (04/10/ 1928) é um escritor e futurista norte-americano, conhecido
pelos seus escritos sobre a revolução digital, a revolução das comunicações e a
singularidade tecnológica. Em sua obra “A Terceira Onda”, revela que a primeira onda trata da revolução
agrícola, a segunda onda apresenta as
modificações ocorridas na sociedade com base na revolução industrial. Já a
terceira onda é a "Era da Informação", em que mente, informação,
conhecimento e alta tecnologia são tipos de capital essenciais ao sucesso das
corporações. Toffler considera que hoje vivenciamos a 4a onda, relacionada à
sustentabilidade e ao meio ambiente.