Eu nunca havia me detido no fato de que os super-heróis não têm pai e mãe vivos. Apesar de saber disso, a informação não tinha ligação com nenhum outro significado, senão o de que na maioria das vezes, são órfãos. Recentemente, dei com uma menção a isso que não é uma mera coincidência nas histórias em quadrinhos como o Super-Homem, o Homem-Aranha, e há pouco, o Harry Potter, dentre outros vários.
Saí então à caça de explicações, pois, queria
como ainda quero entender o que há por trás dessa ausência dos pais vivos e os
feitos grandiosos dessas figuras que habitam o nosso imaginário, voando pelos
ares, enfrentando inimigos terríveis e salvando a humanidade, trazendo de volta
a paz e a justiça como o coroamento dos perigos que vivenciaram...sozinhos!
Em princípio, isso contradiz muito da nossa própria condição, pois crescemos
em grau maior ou menor das figuras materna e paterna como a fontes de
segurança, de permanência e de amparo em momentos difíceis. Por esse prisma
simplório, ter isso tudo significaria, portanto, uma diminuição de capacidades,
algo de que deveríamos nos envergonhar, dado a enormidade do contraste com
alguém, que por outro lado, é completamente destituído dessa força, ou seja, o
órfão e mesmo assim, realiza feitos tão grandiosos.
Mas esse não é o foco da questão.
Via de regra, os super-heróis vêm de algum “outro”
lugar, não são “daqui”. Perderam os pais ou foram preparados por outras
pessoas. Receberam deles, ou mentores (há quase sempre um, que orienta o
discípulo), dons ou forças especiais, que eventualmente saberão manejar. São
anônimos sociais, têm profissões simples, são sensíveis às desigualdades e
possuem senso de justiça apurado. Muitas vezes, têm uma relação ambígua com o
poder (estar próximo significa saber a quem devem combater, ou seja, a
ignorância, não salva!). Suas missões são dignificantes e seus inimigos querem
o fim da sociedade, almejam o controle absoluto de tudo. Quando afortunados (por herança, quase sempre), usam o poder material para viabilizar a missão maior.
O Psicanalista Carl Jung estudou esse arquétipo.
O professor Joseph Campbell o explica através da “Jornada do Herói”. Muitas são
as teses e não pretendo aqui obter a resposta de algo que me parece um grande
mistério.
Super-heróis não são mera diversão. Têm uma significação mais ampla do que costumamos atribuir a eles, especialmente quando deixamos para trás a infância, onde eles existem, de fato. E, refletir sobre o que vem das profundezas do
inconsciente coletivo no qual nossas mentes mergulham em busca de força e
orientação, pode nos ajudar a entender do que necessitamos quando
estamos diante de um obstáculo que nos parece insuperável.
Nós, como eles, somos únicos. Nossos inimigos são igualmente ardilosos e imprevisíveis, mas desconhecem os nossos poderes
extraordinários, recebidos durante a preparação para nossas missões, que nos deram
nossos cuidadores, pais e mentores. Até estarmos prontos, somos seres em
transição, ou aprendizes.
O super-heróis são portanto, “órfãos" já adultos, na verdadeira concepção da
palavra, e por isso estão capacitados a enfrentar obstáculos e inimigos, a defender
seus ideais e proteger o bem maior, o bem-comum a todos os habitantes e
criaturas deste nosso “planeta”.
O adulto, enfim, se faz de muitas matérias, e é
o resultado desse processo de crescimento, para tornar-se responsável, partícipe,
e não se se deixar alienar daquilo que o cerca e sabe ser o melhor para si e
para os outros.
E ao final dessa jornada, percebo, aliviada, que somos todos super-heróis, aprendizes ou já prontos, dependendo da fase de vida e de amadurecimento em que nos encontramos. Eles, que nos divertem até hoje (a mim, pelo menos), nada mais são do que a nossa representação fantástica, inspiradora, fantasiosa, mas absolutamente real e verdadeira de nós mesmos. Ufa.


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